Os desencadeadores de uma frágil auto-estima

EFE/Etienne Laurent

A imagem que temos de nós mesmos começa desde a primeira infância, quando recebemos as mensagens de nossos pais sobre o que pensam de nós. A forma de educar-nos, de valorarnos, de transmitir carinho, de dar asas vai influenciar em nosso caráter e comportamento.

Logo, o círculo se alarga e o nosso ambiente mais próximo nos devolve, como rebotada em um espelho, a nossa imagem.

“Você tem que ter uma auto-estima equilibrada (a sobrestima também é um problema), para poder ir construindo o seu projeto de pessoa: pensar como você é, como se relacionar, como desfruta o lazer, quais são as suas capacidades intelectuais, a auto-estima sexual, como se a dizer no dia-a-dia…Em suma, ter um conceito claro de si mesmo, algo que é difícil”, diz a psicóloga Julia Vidal.

Embora as experiências de vida podem ir modulando a nossa auto-estima, existe sempre uma “percepção em essência de quem nós somos e o que vale a pena”, diz.

A crise econômica, por exemplo, tem ocasionado a perda de postos de trabalho, desemprego que faz mossa na auto-estima do homem por seu papel ancestral de sustento da família, enquanto que a mulher enfrenta melhor essa situação.

“Mas tudo depende da escala de valores de cada pessoa, se uma mulher acha que seu valor como pessoa é ser mãe e não conseguiu sê-lo, pode ser que sua auto-estima é afetada”, diz a diretora do centro de psicologia Área Humana que reconhece que a mulher tende mais para a baixa auto-estima que o homem, por sua própria autoexigencia e da sociedade.

“Temos que ser os melhores mães, esposas, amantes, cuidadoras, responder como profissionais, ter um bom físico e estar na última em tudo…”, considera.

Ir à origem

Embora a auto-estima, como tal, não costuma ser o motivo primário quando alguém recorre à consulta do psicólogo, no final, sempre surge entre outros problemas emocionais.

“Algumas pessoas vêm porque reconhecem e querem tentar a sua baixa auto-estima, mas a maioria o que é depressão e sentem que não valem nada, não têm motivação. Muitos vêm à consulta do psicólogo por outras coisas, mas acabam dizendo que tem que corrigir a auto-estima”, diz a especialista.

Por isso, é importante chegar ao fundo da questão. “O primeiro –acrescenta – é entender de onde vem a baixa estima para não dar varas de cego. Os psicólogos sabemos quais peças você tem que colocar em primeiro lugar, com menos esforço você conseguir mais e não passar anos de sua vida pensando que não vale”.

Desenmarañar da meada para chegar aos fatores desencadeantes da baixa auto-estima: os rótulos que nos colocam nossos pais; a sobreprotección que lhe corta as asas; as expectativas e a frustração de não ter alcançado; ter crenças errôneas sobre si mesmo; nosso físico; perfeccionismo; insatisfação; problemas emocionais, como depressão, ansiedade, ou, por exemplo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, crianças cuja auto-estima sofre pelos maus resultados nos estudos, fruto da falta de concentração.

Mas uma auto-estima frágil, deve-se também a não reparar na normalidade que nos rodeia e tão somente avaliar a excepcionalidade, além da escala de valores de cada pessoa em uma sociedade baseada no “quanto mais você tem, mais vale”.

Como trabalhar a auto-estima de vidro

A psicóloga considera que, uma vez delimitadas as causas da baixa auto-estima, você tem que trabalhar em cima de cada uma delas. Por exemplo, analisar as expectativas e ajustá-las aos objetivos realistas ou tratar a depressão ou a ansiedade.

“Nesses estados emocionais é como se você colocases óculos, que foram marcadas através de que você se olha a si mesmo e ao mundo. Você pode fazer uma avaliação errada. Há que mudar essas crenças errôneas e, para isso, há que desempañar os óculos”, considera a especialista.

É importante analisar o grau de satisfação que a pessoa tem em diferentes áreas de sua vida e, para isso, na Área Humana utilizam, entre outras herrramientas, a Escala de Autoestima de Rosenberg, um questionário de dez artigos concebido pelo sociólogo norte-americano Morris Rosenberg.

“É tão importante reconhecer as nossas qualidades com uma aparência limpa, mas também olhar para os nossos defeitos e limitações e aceitar que somos pessoas normais e por isso somos imperfeitos, cometemos erros, não vamos conseguir tudo o que queremos e o que não se passa nada, porque está dentro da normalidade. Muitas pessoas têm uma baixa auto-estima porque não aceitam esses erros e fixados em si e não valorizam o que têm de bom”, afirma Julia Vidal.

Além de ser reconhecida, além disso, é importante tomar a iniciativa, ser ativo, agir.

“Se temos a tendência de procrastinar, se não fazemos as coisas, não saberemos se somos capazes. Há que arriscar em alguns casos e activarte em outros. Mas uma pessoa que tem pouca auto-estima e confiança há que prepará-la para aceitar que o importante é tentar e que não deve ficar frustrado se não conseguir. Há que continuar procurando e fazendo coisas que gosta e que te fazem sentir válido”, aponta a psicóloga.

Ajustes para equilibrar nosso autoconcepto

Além de recorrer ao psicólogo no caso de que a baixa auto-estima esteja a atrasar nosso desenvolvimento vital, há algumas dicas de Julia Vidal que podemos usar para reflectir sobre o conceito que temos de nós mesmos:

  • Tentar mudar as percepções negativas, e, muitas vezes, erradas que temos sobre a nossa personalidade e o nosso físico.
  • Olhar sem medo para os nossos defeitos e limitações.
  • Rever o nível de nossas expectativas e o grau de frustração se não as temos.
  • Valorizar o que é bom quando é normal, não apenas quando é excepcional. A maioria somos normais, não excepcionais.
  • Ser conscientes de que, se estamos certos, há que seguir para a frente e que estar inseguros às vezes faz parte da vida.
  • Ser ativos, tomar iniciativas, arriscar. Tentar é mais importante do que conseguí-lo.

(Não Ratings Yet)
Loading…

Leave a Reply